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Artigos de Voluntários
 
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As opiniões expressas nos artigos são de responsabilidade exclusiva de seus autores, não sendo necessariamente endossadas pela entidade. O Carib as publica dentro do princípio de pluralidade de idéias, estimulando o debate sobre as atividades a que está relacionado.  
 
Muito obrigado
Equipe Carib
 
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Ser ou não ser de uma ONG (*)

 

 

Há um parágrafo de Bernard Shaw que diz: “Vejo as coisas como elas são e me pergunto: Por quê ? Sonho com as coisas como elas poderiam ser e me pergunto: E por que não ?”

 

No momento em que você resolveu entrar (de verdade) numa ONG é porque decidiu esquecer o “por quê” e escolheu o “E por que não ?”

 

Quem nunca foi de uma ONG decidiu calar os sonhos e acostumar-se com o mundo. Decidiu abandonar a capacidade de indignação e aproveitar-se da rotina. Decidiu esquecer de olhar pelas janelas e observar apenas o chão.  Para ser de uma ONG é preciso sonhar.

 

E manter um sonho é a mais difícil das tarefas.  Exige esperança, recomeço, perseverança. Exige dedicação, cuidado, lembrança. Exige perdão – inclusive e principalmente a si mesmo, por ter sonhado errado no passado. Exige amor.

 

Sonho não é ilusão. São coisas bem diferentes. Ilude-se quem imagina algo mas nada faz para atingí-lo. Ilude-se quem acha que a fome no mundo deve acabar, diz que é uma pouca vergonha haver gente faminta, mas atribui toda a responsabilidade a outros. Diz que o governo deveria fazer algo, as empresas deveriam fazer algo, a igreja deveria fazer algo. Esquece-se que ela mesma frequenta a igreja, trabalha numa empresa e votou no governo. E nada faz.

 

Ilude-se mais ainda quem simplesmente se abstém até de votar. Diz que ninguém presta, que são todos iguais. Age feito avestruz e simplesmente acha que o mundo não tem jeito. Que só Deus mandando um novo dilúvio.  Que não gosta de política porque não quer se envolver, quer permanecer limpo. É o” analfabeto político”, de quem fala Brecht, responsável em boa parte pela miséria do mundo.

 

Um dia, porém, a pessoa resolve participar de uma ONG. É uma forma de fazer alguma coisa. É uma forma de parar de ficar vendo a banda passar e agir. É a primeira fase do abandono da ilusão e da vivência do sonho.

 

Nesse momento, porém, tem que tomar-se cuidado  para não deixar voltar a ilusão de antes. Esse é um perigo. Ocorre a volta quando a pessoa olha para os dirigentes da ONG – assim como olhava para os dirigentes políticos – e diz: vocês poderiam fazer isso, vocês deveriam fazer aquilo, quando vocês fizerem isso eu participo, quando vocês fizerem aquilo eu posso até contribuir. Ou pior ainda: bom, eles não precisam de mim… eu me associar ou não, contribuir ou não, não fará muita diferença…há outros que farão isso... Ou a pior delas: o que eu vou ganhar participando disso ? As vezes a pessoa tenta até suavizar a decisão, adiando-a sine die: Bom, no mês que vem eu começo a participar da ONG, no mês que vem eu faço uma contribuição, no mês que vem... E a participação na ONG fica igual àquele regime prometido mas nunca cumprido, ou à bicicleta ergométrica comprada num gesto nobre mas que tornou-se cabide de roupas no canto do quarto. E arruma sempre uma desculpa, para não participar: “Eu estou numa fase difícil na empresa, estou sem aumento há cinco anos, estou primeiro precisando resolver minha vida profissional…”.

 

Falou uma frase dessas, voltou à ilusão. Para viver o sonho, é preciso mudar o pronome. Não mais “vocês”, porém “nós”. Não esperar o ótimo, mas viver o possível. Não mais apenas imaginar e ficar esperando que alguém faça. Mas agir. Não ser a moça feia que fica na janela vendo a banda passar, achando que a banda tem que tocar pra ela. Se não tocar, ela não vai atrás. O ego fala mais forte. Nada mais orgulhoso que esperar ser convidado para entrar numa ONG. Tem gente que quer que a ONG estenda um tapete vermelho. Só aceita se já entrar como diretor. Quer até isençao de taxas (afinal, o orgulhoso acha que é  um privilégio para a ONG ter o seu nome na relação de associados).

 

Quando você se conscientiza de que na ONG todos têm deveres – e o primeiro deles é contribuir para que ela se sustente - passa então à  segunda fase da mudança para o sonho.  Deixa de dizer “vocês deveriam fazer isso e aquilo”. Passa a dizer “nós deveríamos fazer isso e aquilo”.

 

Mas ainda é pouco. Só faz a consciência pesar um pouquinho, mas mantém a pessoa ainda na ilusão. Sempre na esperança de que um outro tome a iniciativa. Sempre esperando o ideal – “Não fiz a minha parte porque fulano não fez a parte dele primeiro”. Ótimo para cobrar, mas ruim para agir.  Ilude-se.  Ou pior ainda: não fiz a minha parte porque não tenho tempo. Como se o dia de alguém tivesse mais de 24 horas. O problema não é tempo, que é igual para todos. O problema é o verbo que a gente usa. Não somos obrigados a fazer nada numa ONG, ela não é compulsória. Só temos que tomar cuidado quando dizemos “não posso” fazer isso por falta de tempo, de dinheiro ou sei lá do quê. Geralmente o verbo certo é “nao quero” fazer isso porque tenho outras prioridades. Mudar  a expressão “não posso” para “não quero” é a melhor forma de nos conscientizarmos dos nossos limites.  E fazermos o que queremos. Ou seja: assumirmos as responsabilidades das nossas escolhas. Quando usamos “não posso” ao invés de “não quero”, geralmente jogamos a culpa num ente divino que nos impede de fazer o que queremos. Mudar o verbo então é o passo zero para transformarmos a ilusão em sonho.

 

Mas, para viver o sonho, é preciso também tomar a iniciativa junto. Arregaçar as mangas. Fazer do limão uma limonada. E não ficar fazendo continha de débito e crédito do que se ganha. Quem pensa, ao entrar numa ONG, logo de cara em “O que eu ganho com isso ? “ não deveria nem passar na porta delas. Mesmo porque a maioria das ONGs  nem porta tem. Nao tem porta, nao tem teto, nao tem banheiro, não tem chão – como aquela casinha da música. Muitas têm sede virtual. Mas as verdadeiras ONGs, apesar de terem muitas vezes endereço na rua dos bobos número zero, são de verdade. Pois possuem o coração de seus membros.  Possuem gente de verdade. Muitas empresas um milhão de vezes maiores que as ONGs possuem prédios luxuosos, onde é possível dormir na rede porque o prédio está cheio de paredes. Em compensação, à noite, quando as pessoas voltam pra casa, a empresa muitas vezes não tem ninguém. Não tem gente. Não tem alma. Não tem coração. Com uma ONG é o oposto.

 

Uma ONG não deve ser um clube de amigos, ou de pessoas ou empresas. Uma ONG de verdade não é só um grupo de auto-ajuda. Deve ser muito mais do que isso.  Uma ONG de verdade é muito mais que uma ONG jurídica. Uma ONG de verdade é abrangente, universal, idealista. Olha para além do próprio umbigo.  Pensa grande.

 

Uma ONG de verdade também não é uma reunião de bicho-grilo.  Não é um grupo  que resolveu se juntar e criou uma entidade de nome pomposo. E, por não ter fins lucrativos, acham que não deve ser profissional. Por outro lado, não pode nunca ter diretores querendo sempre comer a carne sem roer o osso, querendo o cargo no cartão para dar status sem compartilhar do trabalho árduo do dia-a-dia, fingindo apoio porém gerando intrigas nos bastidores. Isso destrói uma ONG, feito cupim em casa de madeira….

 

Um ong-ueiro de verdade, ético, cuida da ONG em que acredita com carinho. Se compartilha dos mesmos ideais, dedica-se a ela como se fosse remunerado. Sabe que ela precisa ser até mais organizada que uma empresa. Sabe que ela precisa de recursos, e a ajuda a subsistir. Sabe que ela exige trabalho voluntário, e a ajuda a desenvolver-se.  Esquece a continha de débito e crédito. Porém, sabe que, um dia, receberá a recompensa. E a maior recompensa será ver sua ilusão transformar-se em sonho, e o sonho começar a tornar-se realidade.

 

Um ong-eiro de verdade não se melindra. Melindre é a desculpa mais esfarrapada que existe para alguém que não quer fazer nada. Diz: “eu não ajudo porque não concordo com isso, ou não gosto do fulano, ou minha idéia não foi aceita e portanto eu me afastei”. Esse é o eterno reclamão: para ele sempre haverão coisas a serem feitas (pelos outros, é claro) antes que ele faça a sua parte. Sempre haverá uma desculpa. Mas saberá cobrar. Para ser ong-ueiro de verdade, ele precisa aprender a arte da tolerância, da cessão, da colaboração.  A arte de negociar, de esquecer divergências passadas em prol de algo maior.

 

Se você tem um ideal, procure uma ONG que se identifique com ele. E lute por ele. Aprenda a crescer junto com ela. Contribua, divulgue, colabore. Acenda uma vela ao invés de amaldiçoar a escuridão.  Aja, não fique apenas no planejamento e na intenção. Faça alguma coisa – mesmo que pequena – mas faça. E faça até o fim. Seja persistente - é normal numa ONG que o entusiasmo de centenas no primeiro dia vire a sobrecarga de meia-dúzia alguns meses depois: entenda isso como normal na natureza humana, e faça parte dessa meia-dúzia que persiste e não desiste, dessa meia-dúzia que faz a diferença. O melhor plano e a melhor intenção do mundo não conseguem acender um fósforo. Prefira errar por ação do que por omissão. E, principalmente, aprenda a não fugir da raia cada vez que acha que está sendo injustiçado. Cada vez que não recebe a recompensa por aquilo que fez, ou, pior ainda, vê outro receber os créditos por algo que você realizou.  Cada vez que recebe uma cobrança por algo que faz de graça.  Ou cada vez que não recebe sequer um elogio, apesar de ter feito seu máximo – mas, ao contrário, recebe críticas de quem nada fez. Ah, e não ache que, só porque você não recebe nada por isso, não tem obrigação nenhuma e fará algo `quando der tempo, se der...`.  Trate de sua ONG com carinho, que se sentirá parte do sonho. A ONG será sua. O sonho será seu.

 

Aprenda  também a dividir os sonhos. “Sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só. Mas sonho que se sonha junto já é realidade”, já disse a música do Raul. Se você divide os sonhos, não importa de quem é a idéia. De quem é a ação. Vale o coletivo. Soma os resultados. Pensar individualmente é pensar pequeno. É ser mesquinho. Não é coisa de um ong-ueiro de verdade.

 

Um dia, sua ilusão tornar-se-á sonho. E um dia esse sonho se tornará realidade. Basta acreditar.

 

Acredite !  Participe !  Associe-se ! E, por favor, seja honesto com seus sonhos.

 

Mas não deixe pra começar na segunda-feira. Aja logo. Já !

 

(*) o estilo desse texto é baseado em “Ter ou não ter namorado”, de Artur da Távola,  atribuído erradamente a Carlos Drummond de Andrade. Nunca vi Artur da Távola reclamar da Internet lhe ter roubado a autoria, passando a outro (que nem precisava da fama, pois já a tinha de sobra). Acho que Artur  deve então ser  ong-ueiro. Vive das idéias. E dos ideais.  A autoria  é secundária. O que vale é o efeito.

 

Marcelo Corrêa  - voluntário Carib

marcelo@conceito.inf.br  

 

 

 


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